Elza Soares se tornou um ícone dentro da música e para os debates feminista e negro no Brasil. Como cantora, colecionou 35 discos de carreira até a sua morte em janeiro de 2022. As músicas “Se acaso você chegasse”, já no disco de estreia, em 1960, e “Beija-me”, do segundo álbum, de 1961, se revelaram sucessos instantâneos em todo o Brasil. Elza poderia, assim, se tornar uma cantora definida pelo cenário artístico daquele início dos anos 1960. Mas é “A Carne”, do disco “Do Cóccix até o Pescoço”, de 2002, uma de suas músicas mais representativas e ouvidas (“A carne mais barata do mercado/é a carne negra”). Não é, assim, pequena, e ainda menos sem acidentes, a travessia da cantora nascida em uma comunidade pobre entre os bairros de Realengo e Padre Miguel, no Rio de Janeiro: caloura do programa de rádio de Ary Barroso; intérprete de Lupicínio Rodrigues, Ataulfo Alves e Cyro Monteiro; esposa de um dos maiores nomes da história do futebol brasileiro (Mané Garrincha); resgatada do ostracismo